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Adolescente que morreu em desafio era "escrava virtual", diz delegada

Grupos divididos em "panelas" focavam no “hype” e prestígio com escalada de violência contra vítimas

Adolescente que morreu em desafio era "escrava virtual", diz delegada

Equipamentos eletrônicos apreendidos durante a operação serão periciados no decorrer da investigação (Foto: Polícia Civil)

A adolescente de 13 anos que morreu após ser induzida a participar de um desafio virtual foi transformada em uma "escrava virtual" por integrantes de uma organização criminosa que recrutava crianças e adolescentes pela internet, segundo a delegada titular da DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente).

Durante coletiva de imprensa realizada na manhã desta quinta-feira (6), a delegada afirmou que os investigados obtinham informações sobre a família, a escola e a rotina das vítimas para conquistar confiança, fazer ameaças e controlar suas ações.

“No caso da adolescente de Naviraí, podemos dizer que ela foi transformada em uma espécie de escrava virtual. Isso ocorre principalmente com meninas”, declarou.

Segundo Anne Karine, havia integrantes responsáveis por localizar possíveis vítimas em redes sociais abertas. Eles utilizavam técnicas de engenharia social e perfis falsos, com fotografias, idades e até gêneros diferentes dos verdadeiros, para se apresentarem como pessoas próximas da faixa etária das crianças e dos adolescentes abordados.

Depois do primeiro contato, as vítimas eram levadas para ambientes digitais controlados pela organização. “O objetivo era conquistar a confiança de crianças e adolescentes e levá-los para ambientes virtuais controlados pelo grupo. Constatamos que também existem crianças entre as vítimas”, disse.

Investigação aponta homicídio - A DEPCA tomou conhecimento da morte da menina no dia 22 de julho, após ser procurada pelo Ciberlab (Laboratório de Operações Cibernéticas), que informou que o caso estava sendo divulgado nas redes sociais.

Após confirmar a veracidade das informações, o núcleo de inteligência da delegacia iniciou a preservação dos dados relacionados às pessoas que participaram dos acontecimentos.

“Durante a investigação, verificamos que não se tratava apenas de um suicídio, mas de um homicídio”, afirmou Anne Karine.

A polícia identificou cinco adolescentes e um adulto com participação no caso. Eles estavam localizados em diferentes regiões do país.

A delegacia pediu à Justiça a prisão preventiva do adulto, a apreensão dos adolescentes e a expedição de mandados de busca e apreensão domiciliar.

Segundo a delegada, todos os alvos da operação tinham ligação com a morte da adolescente. Os investigados poderão responder por organização criminosa e homicídio qualificado. A apuração também poderá incluir o crime de maus-tratos contra animais.

Grupos eram chamados de “panelas” - Os grupos utilizados pela organização eram chamados pelos próprios integrantes de “panelas”. Dentro desses ambientes, transmissões e ações violentas eram tratadas como “eventos”.

Na noite da morte da menina, segundo a investigação, também foram registrados episódios de violência contra outras vítimas em diferentes estados.

Anne Karine afirmou que o administrador de uma “panela” agia como se fosse proprietário da vítima. A partir das ameaças, a criança ou o adolescente passava a acreditar que algo poderia acontecer com ela ou com seus familiares caso as determinações não fossem cumpridas.

“O administrador ou criador da ‘panela’ comporta-se como se fosse o dono daquela menina”, disse.

As “panelas” também concorriam entre si. Conforme a delegada, os integrantes chamavam de “hype” o prestígio conquistado por meio da escalada da violência.

“Quanto mais violento é o grupo, maior é o prestígio dele e mais pessoas querem entrar naquela ‘panela’. Existe, portanto, uma hierarquia”, explicou.

A quantidade de grupos identificados não foi divulgada porque parte das informações continua sob investigação. A delegada afirmou, entretanto, que existem “panelas” em todo o país.

Os integrantes se comunicavam por apelidos, chamados de nicknames, e muitas vezes não conheciam os nomes verdadeiros nem os locais onde os demais participantes moravam.

Líder de 14 anos - Segundo Anne Karine, a organização era coordenada principalmente por adolescentes. Um dos líderes identificados pela investigação tinha 14 anos, era de Aquidauana e comandava uma das “panelas” utilizadas pelo grupo.

O adulto preso também exercia a função de administrador. De acordo com a delegada, os integrantes circulavam entre diferentes “panelas” e participavam da administração dos grupos.

O adolescente apreendido na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, também administrava esses ambientes e teria transmitido à adolescente sul-mato-grossense determinações relacionadas ao crime.

Anne Karine acompanhou pessoalmente a apreensão e relatou que a família do adolescente desconhecia sua atuação na internet.

“Aparentemente, ele era um adolescente tranquilo. Porém, durante a conversa, demonstrou extrema frieza e satisfação ao explicar os detalhes do crime”, afirmou.

Os demais investigados também tinham convívio familiar. Conforme a delegada, os pais não sabiam das atividades desenvolvidas pelos filhos. “Às vezes, o perigo está dentro de casa, porque o ambiente virtual também é perigoso e precisa ser utilizado com cautela”, disse.

A delegada ressaltou, no entanto, que os pais dos autores e das vítimas não são investigados criminalmente.

Perfis de todas as classes sociais - Os integrantes identificados pertenciam a diferentes classes sociais. Segundo Anne Karine, as diferenças econômicas desapareciam dentro das comunidades virtuais, onde todos eram reconhecidos pelos apelidos utilizados.

“Não importa se têm dinheiro, onde moram ou como é a casa deles. Eles estão naquele ambiente com o mesmo objetivo de praticar violência”, declarou.

A polícia também identificou elementos relacionados a discursos de ódio contra mulheres, grupos raciais e outras parcelas da população.

Objetos e símbolos associados ao neonazismo e à supremacia branca foram encontrados durante as buscas, mas a polícia não informou em quais endereços ocorreram as apreensões. “Eles carregam um ódio generalizado. Não se tratava apenas de um dos locais de apreensão”, afirmou.

Meninas eram as principais vítimas - A investigação constatou a existência de outras vítimas, incluindo crianças. Os locais e a quantidade de casos não foram divulgados.

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