O Grupo Casas Bahia protocolou um pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo para renegociar aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas. A medida foi aprovada pelo Conselho de Administração e pelo acionista controlador da companhia.
O processo foi apresentado ao Juízo de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo e abrange a holding e outras nove empresas do grupo, incluindo companhias que atuam nos setores de logística, comércio eletrônico, tecnologia e fabricação de móveis.
A recuperação judicial ocorre após um forte agravamento da situação financeira da varejista. No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões, contra uma perda de R$ 555 milhões no mesmo período do ano anterior.
Grande parte do resultado negativo foi provocada por efeitos contábeis extraordinários. Do prejuízo total, cerca de R$ 9,1 bilhões estão ligados a ajustes sem impacto imediato no caixa. Mesmo sem esses efeitos, o prejuízo ajustado chegou a R$ 978 milhões.
Entre os ajustes realizados aparece uma baixa de aproximadamente R$ 5,7 bilhões relacionada a créditos tributários. Reorganização do quadro de funcionários, fechamento de lojas, revisão de contratos e atualização das projeções financeiras também contribuíram para o resultado.
Dívidas chegam a R$ 17,3 bilhões
A maior parte da dívida apresentada no processo, aproximadamente R$ 16,4 bilhões, envolve credores sem garantias específicas. Outros R$ 754 milhões correspondem a obrigações trabalhistas, enquanto cerca de R$ 154 milhões são devidos a microempresas e empresas de pequeno porte.
A companhia atribuiu a crise à combinação de juros elevados, restrição ao crédito, aumento dos custos financeiros, enfraquecimento do consumo e maior pressão sobre o capital de giro.
A Casas Bahia depende de recursos para financiar estoques, fornecedores, vendas parceladas e operações de crédito direto ao consumidor. Com a elevação dos juros e o aumento do endividamento das famílias, o custo para sustentar esse modelo ficou mais alto.
A empresa também enfrentou dificuldades para concluir alternativas de captação de recursos. Uma operação que estava sendo negociada com investidores internacionais não avançou, aumentando a pressão sobre o caixa.
Fechamento de lojas e demissões
A reestruturação inclui o fechamento de 298 lojas consideradas menos rentáveis, número equivalente a aproximadamente 29% dos 1.034 estabelecimentos que o grupo mantinha no fim de junho.
O pedido judicial também menciona o desligamento de cerca de 3 mil trabalhadores de um quadro que reunia pouco mais de 30 mil funcionários. A redução busca adequar os custos ao novo tamanho da operação.
Além dos cortes, a empresa pretende concentrar seus negócios em lojas, canais e categorias com maior rentabilidade. A estratégia digital também deverá priorizar margem e geração de caixa, deixando em segundo plano o crescimento de vendas em segmentos pouco lucrativos.
Operações devem continuar
A recuperação judicial não representa o encerramento automático das atividades nem significa que a empresa tenha decretado falência. O procedimento permite que a companhia continue funcionando enquanto apresenta um plano para reorganizar e renegociar suas dívidas.
O Grupo Casas Bahia informou que pretende manter as operações em todos os canais, incluindo lojas físicas e comércio eletrônico, sem interrupções relevantes no atendimento aos consumidores.
A empresa também busca impedir o vencimento antecipado de contratos e a retenção de recursos por instituições financeiras. Entre as medidas solicitadas está a suspensão das execuções por 180 dias, período conhecido como “stay period”, destinado à negociação com os credores.
O grupo ainda solicitou a liberação de mais de R$ 750 milhões depositados em processos trabalhistas anteriores. O objetivo é reforçar o caixa e evitar dificuldades na manutenção das atividades.
Grupo já renegociou dívidas em 2024
Esta não é a primeira tentativa de reorganização financeira da companhia. Em 2024, a Casas Bahia passou por uma recuperação extrajudicial e renegociou aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas financeiras.
Diferentemente da recuperação extrajudicial, que envolve uma negociação mais restrita com determinados credores, a recuperação judicial ocorre sob acompanhamento da Justiça e estabelece regras para a apresentação, votação e execução de um plano de pagamento.
O novo pedido envolve, além do Grupo Casas Bahia, empresas como ASAP Log, CNT Soluções, Cntlog Express, Globex Administração, Cnova Comércio Eletrônico, Integra Soluções para Varejo Digital, Casas Bahia Tecnologia e a fabricante de móveis Bartira.
Uma Assembleia Geral Extraordinária deverá ser convocada para ratificar a decisão tomada em caráter de urgência. A continuidade do processo também dependerá da análise da Justiça e das etapas de negociação com os credores.